Zero tostões pagávamos de aluguer.
Era um quarto andar, banal e normal.
pela traseira dava para uma quadra semi-fechada,
pela dianteira à rua própria, à Atocha e à Martel.
No prédio do lado morava um militarão:
durante um centenar de dias menos um
emitiu para todo o quarteirão em altos bemóis,
notas sobre ‘culos blancos’ e ‘Resistirés’.
Todavia sobrevivemos aos ‘resistirés’;
e aos ‘culos blancos lavados con Ariel’;
e aos ‘sobrevivirés’ entoados aos berros,
por pura resiliência e máxima impotência.
Na casa tínhamos cartazes de abril
e, é claro, nenhum (a)pasta-cães,
e com as vidas em arresto domiciliar,
cada dia dos 99 maternava eu mais um bocado.
Não via o mar desde a minha janela,
mas à rua chegavam pavões do parque.
E procurava escusas para me desconfinar,
mas todos os dias voltava para me refugiar na
minha materna doçura.
As mulheres continuávamos opressas
e íamos à aldeia com o medo da punição;
um novo recuo parecia estar em caminho;
nas janelas cada vez mais bandeiras
e nas ruas cada vez menos pessoas.
Tínhamos um pacto assumido
e com o novo ano o ele foi sofrido e cumprido,
mais quinze dias de isolamento a três.
E tudo está ainda tão fresco, vigente e em
processo que mal enxergamos as más
decorrências que nos aguardam.

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