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O binómio

Leva-me, deixa-me, arroupa-me, despe-me!! Vive! Vivam-me! Tiremo-nos a dor de cima, a angústia, mas com armonia, elegantemente vivendo na plena consciência da inutilidade da vida mais além da pura realidade com sabor a amêndoa amarga do “já passou mais um outro dia”. Despoja-me, despeja-te, desliguem-se, desmascaremo-nos, vivamos. Sim, atreve-te, porque é que não? Toda as pessoas copiamos umas das outras. Toda as pessoas amamo-nos umas às outras. Todas as pessoas competimos umas com as outras.

Todas as Cartas de Amor são Ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Toda a solidão é triste

Toda solidão é
Triste.
Não seria solidão se não fosse
Triste.

Toda a gente quis no seu tempo o seu
espaço,
tranquilo, contudo, algo
Triste.

A solidão, se não for compartilhada,
Será sempre
Triste.

Será, afinal, que
Só as criaturas que nunca souberam
Estar sós,
é que dizem serem o
Triste?

Tomara voltasse o tempo em que ansiava,
sem pensar no amanhã,
na minha solidão,
Triste.

A mentira era que no futuro
os sentimentos
dessa solidão escolhida
(não) iam ser
Tristes.

(Todas as situações graves,
como os sentimentos oxítonos,
são fodidamente
Tristes.)

Tian no país dos ilusos
Homónimo de Antia CL.

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